Continuando a série "Memória CPF", apresentamos mais uma peça chave que ajuda a montar o quebra-cabeça da História da Copa. A palavra desta vez é do primeiro "Craque Paulo Francis", Eduardo Maia (MSN). Como sabemos, o maior artilheiro da competição foi Wagner Sarmento, do MAA, marcando 64 gols em seu tempo. Porém, muitos jogadores da primeira geração afirmam que, se tivesse participado de mais edições, o atacante do MSN poderia ter superado o número. Enfim, são questões que não pretendem ser - nem nunca serão - respondidas; tanto é que, no texto a seguir, Maia nem toca no assunto. Como o título trata de afirmar diretamente, se trata do embrião da ardente rivalidade paulofranciana.
Pois bem... o texto:
O primeiro grande clássico: IMP X MSN
Por Eduardo Cesar Maia
O melhor time que vi jogar no meu tempo de Paulo Francis foi o IMP – ainda que eles tenham atuado apenas no primeiro ano (2003) e que o tenhamos derrotado por duas vezes em jogos realmente emocionantes. O melhor, portanto, nem sempre é o maior ou o mais merecedor. Não quero aqui fazer média com os caras e tentar uma trégua diplomática 10 anos depois da guerra. De fato, as duas partidas foram verdadeiras batalhas, com lances polêmicos, xingamentos pesados, carrinhos do joelho pra cima, expulsões, confusões extracampo etc.; mas a realidade é que, pelo menos nos três primeiros anos da Copa¹
, os outros times não conseguiam fazer partidas no nível das que IMP e MSN realizavam, seja pela qualidade técnica, seja pela rivalidade feroz entre os atletas. Os jogos com os times dos calouros (na época o MAA e a PIA) eram encarados por nós e pelo IMP como simples treinos e como ocasião para marcar muitos gols e tentar a artilharia. Os placares eram sempre muito elásticos.
Muito frequentemente, vocês bem o sabem, a carreira de jornalismo e a prática do futebol não costumam andar juntas ou, quando andam, geralmente o fazem de forma, digamos, desengonçada. Era difícil para qualquer turma, inclusive para o meu MSN, conseguir completar o time, muito menos ter reservas no banco. Tivemos sempre que contar com a boa vontade de jogadores improvisados, que nunca tinham batido uma pelada na vida. Mas o IMP era um pouco diferente, e neste ponto começo a justificar minha opinião de que eles tiveram o melhor time da época. Os
IMParciais (nome babaca, alguns dirão, e eu concordo...) tinham pelo menos 4 jogadores acima da média.
Imparciais
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Diogo Argentino, Heiner Farias, Marcelo Pedroso,
Leo Salazar, Lula e, na horizontal, Grupillo. |
Destaco, em primeiro lugar, o maior atacante da época, o matador Diogo Argentino, uma espécie de “Evair” da Paulo Francis, que sabia tanto finalizar com frieza e precisão quanto servir os colegas com assistências muito bem feitas. Minha disputa pessoal com Diogo era uma coisa antiga, desde os tempos de colégio (Lubienska), mas hoje reconheço nele um jogador muito mais talentoso do que eu, com muito mais controle de bola, apesar de às vezes faltar nele, em momentos decisivos como aquele, um pouco mais de garra e de liderança. Nossa rivalidade foi ainda aumentada porque ambos atrasamos o curso no mesmo ano para fazer um intercâmbio na Espanha e lá jogamos muitas vezes juntos e separados; quando voltamos, fomos disputados por nossas antigas salas para compormos o time original. Por isso, nunca joguei pela OBC (turma na qual concluí o curso) e ele nunca jogou pelo MSN (idem). Menciono, ainda do IMP, o nome de Leonardo Salazar, que também conheço desde moleque, das peladas que batíamos num campão de terra onde hoje está erguido o edf. Sítio Jacobina, nas Graças. Leo é um grande zagueiro, forte e habilidoso com a bola nos pés. Jogou sempre com muita garra, mas acabou prejudicando o seu time por excesso de nervosismo e por ter sido expulso duas vezes em jogos conosco. Admito, aqui, que uma das nossas estratégias (do grego ΣΤΡΑΤΗΓΙΚΗΣ, do inglês strategy, do francês stratégie) era provocá-lo no jogo e fora de campo. O maior craque do IMP, no entanto, em minha opinião, era Luiz Marcelo, o Lula, que hoje é músico e toca na banda Mula Manca, se é que ainda existe o grupo (vou mandar meu estagiário apurar o fato). Jogador completo: atacava com velocidade e habilidade; defendia com força e inteligência – um “Xavi” do jornalismo. À época, eu jogava com ele uma pelada de altíssimo nível todas as quintas-feiras num campinho na Fernandes Vieira, e ele era invariavelmente um dos primeiros a ser escolhido na hora de tirar os times.
Os três que mencionei eram os verdadeiros craques na origem da Paulo Francis, e o IMP ainda contava com Heiner Farias, um jogador competente e útil, mas de um nível um pouco abaixo dos demais. Completavam o time os perronhas Artur Grupillo e Marcelo Pedroso, que tentavam pelo menos dar umas lapadas quando entravam em campo, mas nem isso eles conseguiam. Outra grande vantagem do IMP era contar com um bom goleiro (coisa rara na Paulo Francis): André Telles.
Movimento dos Sem Nome
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De pé: Léo Grego, Rafael Ferreira, Eduardo Maia, Arthucano, Benjamim.
Sentados: Carlos Gamarra, Dudu Surf, Marcelo e Vilela. |
Minha equipe – o glorioso MSN – era, pelo menos no papel, muito mais modesta. Tínhamos, é verdade, um zagueiro muito bom, Carlos “Gamarra”, essencial na nossa conquista. Jogava com muita força, mas sem cometer tantas faltas, e sabia sair com a bola com categoria. Jogou bem todas as partidas e era o ponto de equilíbrio do time. Arthur Gomes, que ficou conhecido na época como “Arthucano” por suas perigosas tendências direitistas, era um jogador muito bom, mas sofria com uma série de problemas físicos: joelho podre, tornozelo, coluna... Ele fez um grande esforço para jogar a Copa e jogou muito bem, disputando, inclusive, a artilharia. Nosso atacante fixo era Dudu Surf, que tinha um bom controle de bola e fez gols importantes, mas era um tanto irregular, porque vivia pensando em Maracaípe, mesmo na hora dos jogos. Deixou o MSN na mão em alguns fins de semana por preferir o surf ao futebol, um pecado mortal que ele ainda pagará no inferno. Mas, quando entrava para jogar, colaborava muito. Leo Grego, nosso homem no Itamaraty, era um zagueiro esforçado e brigador; compensava as deficiências técnicas com muita vontade de ganhar e com lapadas nas canelas dos outros: foi fundamental nos jogos mais duros. Sobre mim mesmo, diria que me superei nessa Copa. Não tinha a habilidade de Diogo Argentino, nem a força de Salazar e muito menos a “completude” futebolística de Lula, mas coloquei toda a minha vontade em cada partida, e aproveitei muito o fato de chutar bem de longe, marcando muitos gols dessa forma. Renato Lima foi nosso “gigante” no gol. Defendia a meta com muita raça e se atirava nas bolas sem se importar com a queda e não tinha medo das bombas dos atacantes adversários... Tanto que machucou a mão e foi substituído pela revelação Rafael Ferreira, que foi o goleiro da grande final e teve um papel importante no resultado. É dele a invenção da “defesa manchete”, que consiste em suavizar um chute potente utilizando o conhecido movimento de braço utilizado por jogadores de vôlei. Era estranho – verdade – mas funcionava.
O primeiro jogo – No primeiro enfrentamento, lembro-me de que o domínio do IMP era quase absoluto: mandaram no primeiro tempo e saíram na frente com um gol de Diogo Argentino. Deixo vocês com o depoimento de Benjamim sobre o confronto, escrito na coluna que ele mantinha no blog da Copa daquele ano, no qual comentava todas as rodadas: “O segundo confronto da rodada era o clássico mais esperado da primeira fase. IMP e MSN se enfrentaram fazendo o jogo que muitos apontam como a provável final da Copa. Os dois times iniciaram o jogo na defesa. Foi o contra-ataque do nono período que funcionou melhor. Diogo Lopez marcou aos seis do primeiro tempo. Cinco minutos depois Dudu Maia empatou. Diogo Lopez, terceiro lugar na briga pela artilharia, com dois gols a menos, e Arthur Grupillo marcaram para o IMP antes do intervalo. No segundo tempo, o MSN iniciou no ataque e no primeiro minuto de jogo Arthurcano marcou o gol que lhe garantiu a artilharia da Copa por mais uma rodada. Dudu Maia empatou aos dez minutos e aos dezessete pôs o MSN na frente pela primeira vez na partida, que terminou com esse placar”. Como você podem perceber, foi um jogaço... E começou aí o clima de hostilidade e pancadaria que iria se repetir no último e decisivo confronto.
O IMPério tenta contra-atacar
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Antes da grande final, alguns jogadores do IMP fizeram um protesto
contra a organização do torneio. Segundo eles, os articulistas do
Blog da CPF estavam maculando suas imagens e transformando-os
em vilões... Quem mandou acreditar em IMParcialidade, hein, papai? |
Terminamos, portanto, a primeira fase do torneio em primeiro lugar, e chegamos à final com o direito de empatar a partida, mas o MSN nunca foi time de jogar pelo empate. O time começou o jogo de forma muito intensa, até mesmo nervosa, mas acabou dando certo e acabei marcando o primeiro gol do dia, em um chute forte, cruzado e de longa distância. Os Imparciais, pressionados pela necessidade de marcar pelo menos dois gols, foram para cima e conseguiram o empate com um gol de Diogo Argentino. A partir daí lembro que o jogo pegou fogo: catimbas, ameaças, pancadas realmente fortes... Tudo se encaminhava para uma briga generalizada entre os dois times e mesmo com gente que só assistia, mas que queria ver o cacete comer de qualquer jeito. Não quero cometer injustiças e dizer que eles tiveram a culpa: estava todo mundo no mesmo clima, mas a diferença é que nós mantivemos a calma diante do juiz, e ele não teve como expulsar ninguém do nosso time (levamos quatro cartões amarelos, mas ninguém repetia o erro). Do outro lado, Leo Salazar, muito nervoso desde o princípio, acabou levando o vermelho. Desempatei o jogo após uma jogada muito bem feita por Carlos Gamarra e Arthurcano, e o jogo terminou dessa maneira. Os destaques da partida, segundo a crônica esportiva da época, foram o goleiro Rafael Ferreira e Dudu Maia (sim, eu mesmo), do MSN; e, também, Diogo Argentino, do IMP, que conquistou a artilharia do campeonato. Depois, a emoção tomou conta de todos e só posso dizer que houve entrega de medalhas, do troféu e até volta olímpica. A bonita e imponente taça de campeões da 1º Copa Paulo Francis encontra-se atualmente em minha residência, e todos os dias olho para ela com orgulho... Ainda sobre a partida final, quero registrar que o jogo foi filmado pela nossa colega de classe Maria Eduarda Andrade, que hoje é cineasta/documentarista em NY. O material está sendo procurado pela mesma e, se encontrarmos, prometemos uma sessão especial no Cine São Luiz para exibição dessa peça de rara qualidade cinematográfica e futebolística.
Epílogo
Bem, no ano seguinte (2004) as coisas foram bem diferentes... O IMP já não participou, não fomos campeões (o título ficou com o medíocre time do OBC...); mas conquistei a artilharia com um número de gols que acho que até hoje não foi batido numa única Copa. Ainda não conseguimos resgatar estes dados para confirmar, portanto isso fica pra um próximo texto.
¹ Em 2003, fui campeão e fiquei em segundo lugar na artilharia; em 2004, vice-campeão e artilheiro absoluto, com mais de 10 gols a frente do segundo lugar; em 2005, não pude mais jogar, mas acompanhei os jogos da Copa.